domingo, 5 de junho de 2011

I.I

O dia estava extraordinariamente quente. Abri a janela do quarto, para que o sol entrasse, desinibido. Mas antes de sair deixei-me ficar ali por momentos, a olhar o pouco de paz que ainda fazia parte da minha vida. Sempre gostara daquela casa. Arejada e cheia de sol, não dava vontade de coisa nenhuma a não ser ficar de manhã à noite sentada no baloiço a apreciar as árvores e borboletas que se deixavam embalar pela delicia do tempo. Era uma boa casa. Evocava tantas e tão boas memórias, a cada canto encontrava uma história de embalar.  Era uma casa que nunca perderia o seu brilho, por muito longe que estivessem todas as suas razões para brilhar.
Ia ter saudades de tudo isto. Ia ter saudades da roupa estendida de árvore a árvore, ia ter saudades do baloiço que já pertecera à infância da minha mãe, ia ter saudades de fugir das abelhas pelo meio do mato e voltar a chorar porque me tinha cortado no meio das flores campestres. Ia sentir saudades dos finais de tarde passados ao colo da minha mãe, no meio de tanta vegetação a ouvir uma história de encantar. Vou sentir saudades de tudo. Fechei a janela para que o quarto se mantivesse fresco. Fechei a janela para manter presas naquela casa todas as vidas que por ali se esfumaram.

Como um baú cheio de cartas, esta, era uma casa cheia de histórias.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Change

Inevitavelmente, novas ideias surgiram e a história tomou um novo rumo. só para evitar confusões com os próximos posts. As personagens são as mesmas mas noutra época e noutro contexto.

Este natal vou rechear o Blog com novos capítulos.

sábado, 9 de outubro de 2010

Recomeço

Ganhei a motivação necessária para escrever mais e mais capitulos :) obrigada seguidores

domingo, 17 de janeiro de 2010

parte II

Deixámos a praia para trás, com a paleta de azuis a fundirem-se no céu, dos tons mais escuros para os mais claros. Nunca em todo o caminho ele me largou a mão por qualquer instante que fosse.
Percorremos alguns metros na areia, silenciosamente, até encontrarmos o pequeno trilho de terra seca que nos levava até dentro do bosque, que se fundia com a praia como se fossem um só. Enquanto nos fomos embrenhando, subindo continuamente ao longo da enorme variedade de árvores e arbustos, também o nevoeiro e a humidade se foram intensificando, impedindo-nos de ver claramente dada à pouca luz presente no ar, que cada vez se ia esbatendo mais por trás de nós. Tal humidade podia dever-se ao facto de nos estarmos a aproximar do pequeno riacho que corria o bosque de uma ponta à outra, passando pelas várias casas, incluindo a minha e a sua. Continuámos o percurso e, gradualmente, foram surgindo as enormes ruínas das antigas muralhas do castelo que deram origem às lendas e histórias encantadas, das quais era o palco principal. Não me tinha dado conta que já tínhamos subido tanto, em tão pouco tempo. Na minha cabeça permanecia a mesma pergunta que me tinha ocupado a cabeça desde que saíra da praia... para que lugar estaríamos a ir? Interroguei-me por que razão nunca teria explorado aquele local convenientemente. Há anos que ali vivia, e nunca tal ideia me ocorrera. É certo que já tinha visto as ruínas, como toda a gente. Seria até uma ofensa não tê-lo feito. Mas havia tanta coisa à sua volta e eu continuava a parecer uma estranha naquele lugar.
A intensa humidade, que fazia o meu cabelo agarrar-se à cara de cada vez que me mexia, começara a dissipar-se. Entre algumas árvores altas havia pequenas aberturas que permitiam o quarto crescente incidir sobre o caminho de terra que nos levava a algum lado. -- parecia conhecer todos os ínfimos detalhes daquele bosque, como se passasse as noites a examinar cada canto. Continuava confiante a guiar-me pelo caminho fora até que, num abrir e fechar de olhos, metade das árvores que nos cercavam tinham sido substituídas por arbustos mais rasteiros, e qualquer tipo de plantas que possuíam um aroma doce e enjoativo que me invadiu as narinas, provocando-me uma ligeira tontura. Só depois me apercebi da imensidão que se alastrava à minha frente. Fiquei paralisada, a olhar para aquela irrealidade. A minha cabeça ficou vazia, nada me interrompeu naquele momento. Conseguia apenas ouvir pequenos animais a sussurrar. Parecia qualquer coisa sagrada, aquela extensão de água vinda de não sei onde... uma lagoa imensa, onde nenhum movimento sobrevinha. Senti olhos postos em nós, mas não havia ali ninguém. Era impossível. Senti as minhas pernas a submergirem na água, sem eu ter feito qualquer esforço. Acordei do sonho onde estava e logo me apercebi que -- me estava a puxar, uma vez mais, mas agora era em direcção ao centro da lagoa. Paralizei os meus joelhos, analisando a estranha temperatura que, curiosamente, estava ainda mais alta do que a da praia. Olhei à minha volta, procurando-o, mas tinha desaparecido. Virei me de costas, assustada, procurando algum sinal de vida naquele lugar. Virei-me de novo quando ouvi o meu nome sussurrado mesmo junto à minha orelha, mas quando vi, ele estava todo mergulhado na água a alguns metros de mim. Senti um arrepio a descer a minha espinha.
- Vem Ag. Confia em mim. - Não conseguia ver a sua expressão, mas a sua voz era o mais suave e carinhoso que alguma vez tinha sido nestes últimos dias.
Cuidadosamente, obriguei os meus ombros a entrarem naquele líquido transparente, temendo, mesmo assim, que algo se pudesse aproximar de mim sem eu ver. Nadei para junto dele e quando me aproximei agarrou de novo nas minhas mãos, mas juntou as minhas costas ao seu peito, ficando as nossas mãos junto da minha barriga. Senti-me segura, durante o momento em que permanecemos agarrados.
- O que achas? - Segredou ao meu ouvido, mas desta vez sabia que estava bem junto a mim.
- Não sei descrever - disse, murmurando, com medo de acordar alguma coisa que ali estivesse, fora do alcance da minha visão.
- Há muito tempo que queria trazer-te aqui, sabes. Só nunca tinha havido a oportunidade certa. – Beijou-me o cabelo húmido e juntou o seu queixo ao meu ombro. Não disse nada.
Havia uma infinidade de perfumes no ar, cada aroma se misturava com o outro, tornando-o quase sufocante. Permanecemos juntos durante um tempo que não consegui caracterizar. Ali parecia tudo mais lento do que o habitual.
- Parece que nos trouxeste para um lugar qualquer daqueles que aparecem nos sonhos – a minha voz estava a soar de modo infantil, mas era mesmo assim que eu me estava a sentir: uma criança num mundo perfeito.
Virei-me de frente para ele, ficando a poucos centímetros da sua cara. Olhei-o nos olhos, que, apesar da escuridão, ainda transpareciam o seu azul. Beijei-o na testa e abracei-o.
- Está na hora de irmos – disse – já é tarde. Não queria de todo ir-me embora dali, mas havia coisas para fazer.
- Claro, vamos – agarrou-me de novo nas mãos e levou-me para fora de água. Estava muito calor e só me apetecia tirar a roupa que estava colada ao meu corpo. Quando dei por ele, já tinha tirado a sua fina camisa. O cabelo loiro batia-lhe nos ombros, meio molhado. Fiquei incomodada, e agradeci por ser de noite e ser completamente impossível ver as minhas faces a rosar. Ele sorriu. Não entendi. Era mesmo impossível ter-me visto corar! Concluí, na minha cabeça, enquanto ele escorria a camisa, que era realmente assustador estar num sítio daqueles, de tão perfeito que era. Ainda por cima, com ele. O que piorava um bocadinho a situação. O meu coração disparou e decidi expulsar esse pensamento da minha cabeça, guardando-o na minha memória.
- Estás pronta?
- Sim, claro - sorri. Nem sequer tinha atado o meu cabelo, que continuava a pingar.
- Sim, claro - sorri. Nem sequer tinha atado o meu cabelo, que continuava a pingar. Tinha ficado a olhá-lo que nem uma criança quando observa pela primeira vez algo extraordinário.
Começámos a descer o mesmo percurso que subíramos, mas desta vez não me preocupei em olhar para todos os lados, ficando resplandecente cada vez que algo me chamava à atenção pelo que quer que fosse. Chegámos de novo ao pequeno riacho que nos levava de volta para casa. Ele acompanhou-me até à minha porta, que mantinha a luz do alpendre acesa, chamando a atenção dos insectos. Ficámos a olhar-nos por momentos, e só depois consegui dizer:
- Obrigada pelo dia de hoje, foi realmente interessante. Há muito tempo que não estávamos desta maneira. - O meu coração não diminuía a velocidade, batia de uma maneira acelerada como se tivesse acabado de correr. O seu olhar estava a deixar-me cada vez mais descoordenada, por isso olhei para o chão.
- Eu é que te agradeço Agnes. Já tinha saudades destes nossos momentos. - Com uma mão puxou o meu queixo para cima e antes que eu tivesse reacção aproximou-se de mim, ficando apenas a um milímetro da minha boca. O meu coração ia rebentar, dentro de instantes. Agi instintivamente e, sem qualquer pressa, juntei os meus lábios aos seus, receosa com o que se seguiria a seguir. Senti a sua outra mão nas minhas costas, levando-me mais ao encontro do seu corpo despido. Coloquei as mãos timidamente no seu peito quente e deixei-me levar.

***

Quando entrei em casa todas as luzes estavam acesas. Se calhar não era assim tão tarde como eu pensava. Passei pela porta da cozinha que já tinha tudo arrumado no lugar. Antes de entrar no meu quarto passei no da minha irmã.
- Onde é que estiveste? – Interrogou-me assim que entrei.
- Estive com o --.
- A sério? Mas então vocês estavam tão distantes e… o que foi, foste tu que me disseste! – Defendeu-se, quando eu a olhei com olhos inquisidores.
- Sim, mas agora já está tudo bem, não há razões para falar nisso.
De vez em quando dava-me a impressão de que os seus dezasseis anos mais pareciam cinco.
- Tudo bem. Mudando de assunto, não te esqueceste do que temos que fazer amanhã, pois não?
- Não Vivienne, não esqueci. A que horas temos que ir para lá?
- Logo assim que o sol nasça. Quanto mais cedo melhor, fica logo tudo pronto.
No dia seguinte ia haver uma celebração das colheitas, imitando os rituais que os nossos antepassados costumavam fazer, mas sem o mesmo rigor. Era aquelas típicas festas onde toda a gente come, bebe e dança. A aldeia já há vários dias tinha começado a fazer os primeiros preparativos. Tinha visto as alterações que fizeram junto do largo quando fui comprar alguma fruta e ovos para o almoço de hoje.
- Tudo bem. Assim que acordar eu chamo-te e vamos logo então.
- Está bem.
- Boa noite, Viv.
- Agnes… - estava já junto da porta quando me voltei para trás e a vi a olhar para mim com os olhos a brilhar.
- Sim…
- Amanhã… ah, o … o Aeron também vai connosco para ajudar toda a gente, está bem?
- Claro! Quantos mais melhor. – Dei-lhe a entender que não tinha sequer reparado na sua pequena indecisão ao dizer me aquilo. Saí do seu quarto e dirigi-me para a casa de banho. Quando entrei no meu quarto não havia uma única luz acesa, apenas o brilho do quarto crescente que entrava pela minha janela, iluminando todo aquele espaço junto à cabeceira da minha cama. Estava cansada. Apesar de tudo, aquele dia tinha sido esgotante. Mal me enrosquei nos lençóis, comecei a adormecer…

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

o ínicio - parte I

Depois da longa caminhada que fizemos ao longo da praia e de eu lhe ter contado toda a minha existência natural, durante estes últimos tempos em que passou fora, decidimos sentar-nos naquele lugar só nosso, aquele pedaço de areia onde tantas outras vezes já tínhamos construído castelos, feito confissões desesperadas e de, em muitas situações, não termos feito simplesmente nada.
Quando me sentei, exausta, por já não estar habituada aos nossos longos percursos, olhei para cima, tentando perceber que sombra permanecia intacta à minha frente, impedindo o sol de se despedir de mim, de mais um ciclo, de mais um dia. Ele, ao contrário do que pensei quando o olhei fixamente, parecia querer permanecer ali para sempre.
- Porque não te sentas? A areia ainda está quente – sugeri-lhe, brincando com a piada de sempre.
Indescritivelmente parecia que havia algum poder da parte dele que me impedia de ser como costumava ser e que envergonhava a minha própria coragem. Não costumava ser assim. Desde que regressou da sua ausência misteriosa, tinha deixado de ser o -- aberto e simpático que sempre tinha sido, desde a altura em que brincávamos de fraldas. Agora, de cada vez que eu abria a boca para dizer o que quer que fosse, logo me arrependia. Todas as minhas frases pareciam ser minuciosamente lidas pela mente dele, umas cem vezes, para testar algum senso de inteligência, que, claro está, raramente lá estava. Sentia-me constrangida por continuar a ser a Agnes que sempre fui. E de alguma maneira, sentia-me mal por saber que já não havia o – de outrora.
- Não sei. Acho que prefiro ficar aqui. – Que quereria ele dizer com isto? Mais uma das suas estranhas reacções: rejeitava tudo o que não era ele próprio a propor.
Relembrei de novo o que me enervou mais no passeio de hoje. Em primeiro, as suas falas reduzidas. E segundo, o conteúdo do que dizia parecia permanecer um mistério à minha compreensão. Não consegui ainda entender ao certo se ele vai, algum dia, contar-me o que se passa ou o que se passou, se é que tenciona realmente fazê-lo. O que é certo, é que continua a querer a minha companhia, ainda que não se esforce minimamente para manter um diálogo. Estava a começar a considerar ser eu a chegar-me à frente para entender o que não conseguia descodificar.
- Em que estás a pensar? – Nem me apercebi que tinha permanecido completamente calada durante o tempo em que entrei em devaneio com as poucas respostas que ele me dava.
- Estava a pensar em muita coisa. Mas o que mais me preocupa és tu. – Não prossegui, querendo perceber se ele ao menos ouvia o que eu lhe dizia.
- Eu? – Invariavelmente assumiu a postura de que não tinha percebido o que acabara de ouvir.
- Sim tu --. Se estiveres a interrogar-te ‘porquê’, posso esclarecer-te.
- Sim, claro. – Novamente, mais uma resposta típica.
- Olha, vai custar-me dizer-te isto – nem quis olhar-lhe para a cara enquanto falava, não ia facilitar as coisas – mas não entendo o que tu pensas ou o que tu queres, se é que queres alguma coisa. Já é a segunda vez que aqui vimos, depois da tua viagem, já foram também duas as vezes que me pediste para te contar o que tinha acontecido na minha vida enquanto estiveste fora e eu, estupidamente ou não, ainda não percebi, contei-te tudo, detalhadamente. Tu, por outro lado, limitas-te a fazer perguntas simples e a responderes com monossílabos. É realmente cansativo tentar adivinhar a toda a hora a maneira como te sentes ou se aquilo que eu digo te interessa ou se o ouves só por conveniência. Conhecemo-nos há anos e nunca tivemos um momento em que houvesse silêncio entre os dois… tu dizias como te sentias, eu também e a partir daí ajudávamo-nos mutuamente. Agora nem sei se precisas de ajuda, não consigo ver o teu estado de espírito e os teus sentimentos parecem demasiado distantes para a compreensão de um ser humano. Parece que crias uma barreira à tua volta, impedindo qualquer pessoa de chegar a ti. Eu não sei que mais te posso dizer. Desculpa-me se fui bruta. – Durante instantes continuei sem coragem para olhá-lo nos olhos, que desde sempre transpareciam a sua alma, e agora, estavam baços, distantes. Demorou pouco tempo a criar a sua resposta.
- Não foste bruta. Foste o mais sincera que eu te podia pedir. Eu sei que ultimamente não tenho sido quem tu gostavas que eu fosse. Desculpa-me por isso. Já tinha reparado que havia perguntas que tu evitavas fazer, com receio do que eu pudesse responder. Desculpa-me se te fiz sentir desconfortável. – Fiquei espantada. Por duas razões. Falou, respondeu-me, reagiu. Mas não me deu qualquer explicação e as minhas dúvidas permaneciam insaciadas. Mas não ia insistir mais. Podia ser que ele tivesse percebido que eu queria ser esclarecida. Se não, talvez mais tarde lhe perguntasse directamente o que se passava. Mas não agora.
- Não tens que pedir desculpa. – Não tinha ainda acabado a frase já ele se tinha sentado bem perto de mim, como sempre tinha feito. De um momento para o outro parecia que toda a sua guarda se tinha finalmente posto de lado. Permanecemos em silêncio durante um tempo e nem eu nem ele fomos capazes de o interromper. Instantaneamente parecíamos repostos num dos nossos muitos momentos naquele sítio. Ficámos assim até ao sol se esconder por completo por trás daquele manto azul esverdeado que se estendia calmo à nossa frente.
Quem quebrou o silêncio foram as palavras da nossa mente, as perguntas de ambos. Então, olhámo-nos por uns segundos e eu não consegui resistir àquele sorriso que tantas vezes me tinha feito sorrir também, depois de um idêntico momento de constrangimento.
Senti os seus dedos quentes a percorrerem a minha cara, forçando-me a olhá-lo nos olhos. Com a sua outra mão, pegou na minha e levou-a aos lábios, beijando-a delicadamente como se também ele tivesse receio. Olhou-me com olhos de quem pede uma oportunidade eterna e disse-me:
- Vem comigo. – Não lhe respondi. Nem sequer tive reacção. Levantámo-nos num salto e a partir daí limitei-me a segui-lo para aquilo que eu sabia que ia ser mais uma das nossas grandes aventuras.
[p.s. '--' corresponde ao nome ideal que eu ainda não encontrei para ele]